PLANTAÇÕES

    This site uses cookies. By continuing to browse this site, you are agreeing to our Cookie Policy.

    Papyrus: 81ª Edição

    • PLANTAÇÕES


      PLANTAÇÕES

      É O VAZIO E O ABISMO QUE ESTÃO PERMANENTEMENTE SOB SEUS PÉS,
      NUM VÓRTICE TEMPESTUOSO QUE PODE ENGOLI-LOS A QUALQUER MOMENTO.
      POIS A MORTE O ESPREITA COM SUA FACE TENEBROSA E HEDIONDA EM TODOS OS INSTANTES, SOB OS SEUS PÉS.
      - Joel Birman, grifos meus.

      Pode acontecer, por exemplo, o seguinte: você se esconde atrás de um arbusto. Naturalmente apoiará a mão em um galho. Há um fino fio de arame ligado a esse galho. Esse arame aciona um ignitor, de M4, de tão popular que até já existe um pelotão de Gigantes a Vapor com esse codinome. "M4 passando", brandiu o sargento noutro dia. - O resultado é a explosão de três cargas explosivas que estão colocadas embaixo de um monte de pedras ali perto de uma pequena árvore. E em vista disso, meu caro leitor, você sai desse baixo mundo para outro provavelmente melhor - pois eu não acredito que seja pior.

      Coisas semelhantes podem acontecer se, descendo um morro, você tropeça em um fio qualquer; se abre uma porta inadvertidamente, ou se agacha para apanhar um capacete do inimigo esquecido no chão que pensa levar como recordação para casa e pendurar na parede de sua sala de visitas; ou mesmo se puxa o cordão de uma caixa de descarga. A maior parte das minas explode, porém, por simples pressão, como essa que nossos homens conhecem como "arranca-pés", e que é talvez a mina antipessoal mais encontrada no nosso setor. Já tem acontecido até que minas desse tipo e daqueles de tração - do aramezinho esticado - explodam sem que nenhum soldado as toque; um bloco de neve que rola morro abaixo já é o suficiente para detonar uma carga.

      **********

      Mas não basta saber plantar minas para o inimigo colher. É preciso prever também a necessidade de você ter de retirar as minas que você mesmo lançou. Aqui há uma estrada. Você teme ou desconfia que o inimigo pretenda avançar por aqui, para um ataque ou um golpe-de-mão. Então você vai lá no escuro e faz as plantações da morte. Mas pode acontecer que amanhã a nossa tropa precise avançar por ali. Então pode se dar o caso de que você tenha que avisar simplesmente com exatidão onde é o campo minado, de maneira a que os infantes tenham que passar com segurança por ali - já que não há outro caminho. Há caso como esse que é preciso retirar as minas que plantou. É para isso que, quando se faz uma semeadura de minas, os mineiros fazem com todo cuidado a sua "amarração". Isto é: marcam direitinho o lugar em que está uma certa mina, a três metros daquele pau de cerca na direção precisa daquele tronco de oliveira, suponhamos. As outras minas são então dispostas em relação àquela, formando figuras geométricas. Assim fica muito fácil localizar as minas que estão enterradas, na hora de retirá-las.

      **********

      Os inimigos não estão fazendo assim. Nossos "coletores", assim como chamamos aqueles que colhem o fruto da morte, têm colhido uma safra abundante de minas, e essa colheita dá muito trabalho, pois as minas estão espalhadas sem simetria nenhuma. Mas fica evidente que ainda assim seria possível ao inimigo retirar as minas, se tivesse necessidade. Mas seria então necessário a ele fazer uma "amarração" muito minuciosa, complicada e rigorosíssima - o que não é prático.

      O que se deduz daí, com muita probabilidade, é que o inimigo não pretende voltar pelas estradas por onde semeou as suas sementes infernais. Certamente, em um período de frente estabilizada, o nosso comando não somente tem preparado planos de possíveis ofensivas como também planos de resistência a possíveis ataques do inimigo. Mas esse pequeno detalhe dos campos de minas desordenados indica de um certo modo o estado de espírito dele. De modo geral ele sabe que não vai voltar, vai indo, pouco a pouco, empurrado por todos os lados, e sabe que não voltará. É uma guerra sem esperança, uma luta de desespero. Uma hora ele não terá mais para onde ir.

      E o problema então - está chegando a hora de decidir esse problema - será fazer com que o inimigo não volte. Porque ele pode voltar, ele pode brotar outra vez do chão, seja aqui ou no outro lado do mundo, munido de novos discursos, e são esses discursos cheios de pragas alienatórias, que é difícil de exterminar. É o preço que os povos pagam pela própria desídia. É a defesa frenética dos privilegiados. E contra ele só há um remédio verdadeiro: conquistar e manter a todo custo a liberdade do homem, e só há liberdade entre os homens quando cada um valer pelo seu trabalho - e não pelo seu nascimento e nem pelos seus privilégios. Ninguém se iluda, acabar com as injustiças nacionais e sociais que são o caldo da culturas imperialistas e ditatórias que suscitam guerras, será uma luta muito dura, uma grande luta do povo.

      Mas creio que vale a pena lutá-la, pela mesma razão que vale a pena lutar pela guerra de hoje. Tenho um filho, é ainda um menino - tem muitos caminho a andar no mundo. Não pretendo que ande por estradas de rosas, como um pequeno vagabundo do reino da Felicidade. Mas eu pretendo que ele nunca precise andar pelos caminhos que o soldado e os milhões de outros soldados do mundo estão trilhando hoje: os caminhos onde a todo instante um passo distraído pode ser uma explosão estúpida, e a morte.

      A terra não foi feita para plantar minas - foi feita para plantar batatas, estacas, trigo, café e mesmo - não creia que seja proibido, já que a terra é tão grande! - flores.

      Está chegando a hora de resolver. Essas lavouras do futuro, a lavoura que meu filho e vosso filho vão colher amanhã - nós é que a semearemos agora. Pois - dizia o Eclesiastes - há tempo de semear e tempo de colher. E eu, com licença acrescentarei: minas.

      Redator(a): Soul
      Chefe de Redação: mata hari

      A anarquia ostenta duas faces.
      A de Destruidores e a de Criadores.
      Os Destruidores derrubam impérios, e com os destroços, os Criadores erguem Mundos Melhores.

      The post was edited 1 time, last by mata hari ().