VESTIDOS

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    Papyrus: 81ª Edição



    • VESTIDOS

      Tinha de todas as cores, formatos e modelos. Curtos, longos, recatados e mais ousados. Não muito ousados, mas o suficiente para fazer com que os homens suspirassem. Toda vez que ela saia de casa com um dos seus vestidos o dia ficava um pouco mais bonito. Mais colorido. Mais florido. E flores era tudo que ela podia usar. Desde que era muito pequena, sua estranha mania de só usar vestidos floridos deixava a mãe sem saber o que fazer.

      – Eu quero! – gritava certa vez a menina, quando quase estava no portão de casa.
      – Menina, é um casamento! Não dá pra ir com vestido florido, não dá – e puxava o braço da menina para, em vão, tentá-la demover da ideia. E não conseguia.

      O que era apenas um capricho infantil tornou-se uma mania que a tornava triste. Quando não conseguia um vestido limpo para sair sua área ficava limitada ao portão de casa. Tentara diversas vezes e não conseguiu nenhuma. Faltavam as flores, faltava algo. E o invisível bloqueio a mantinha prisioneira de si mesma.

      Até que ela o viu. No primeiro dia estava varrendo as folhas quintal. Foi quase de relance. Ele passou tão rápido que ela não teve tempo de reparar no que tinha visto. Apenas aconteceu. Um aconteceu que se repetiu por vários dias, seguidamente. Ela olhava atentamente o rapaz que às vezes sorria para ela e trazia paz e esperança para o seu mundo limitado pelas flores. Todos os dias ela queria falar com ele e, com seu vestido florido, dava alguns passos fora da casa e o via seguir adiante na rua, sem saber o destino.

      Certo dia, quando não havia vestidos floridos para ela usar, a moça percebeu o rapaz se aproximando, passar e sorrir, mas não conseguiu sair para vê-lo continuar a caminhada. Desesperada, gritou, para espanto do rapaz, que voltou até o portão.

      – Eu te vejo passar todos os dias aqui – disse ela. – Mas não faz muito tempo.
      – Mudei meu caminho, vou para casa por aqui depois que… – interrompeu-se.
      – Que?
      – Vi você pela primeira vez. Agora passo sempre por aqui.
      – Para onde está levando isso? – ela apontou para o objeto nas mãos dele.
      – Para casa, quer ver o resto?
      Ela queria. Mas não tinha coragem.
      – É que eu estou sem meu vestido… – ele interrompeu.
      – Vem, vem, você está linda!

      Abriu o pequeno portão, segurou em sua mão e a puxou, sem resistência. Ela nunca tinha sentido tal emoção antes e viu sua casa ficar para trás. Caminharam por pouco tempo, sem se falarem, até que ele anunciou a chegada. Ao abrir o grande portão que cobria toda a frente, ela colocou as suas mãos na boca, espantada.

      – Estão todas aqui... – disse ela.
      – Sim.
      – Por quê?
      – Não sei, desde pequeno tive essa mania. Sempre que volto pra casa compro flores e as trago pra cá. Não passo um dia sem trazer – dizendo isso ele colocou o vaso de flor que segurava ao lado das inúmeras outras, olhou para ela e continuou: – Mas nenhuma flor de todas as que estão aqui se comparam a você.

      Passaram a se ver todos os dias, ele com a flor na mão e ela com vestidos coloridos, vibrantes e alegres. Os floridos ficavam para as raras ocasiões em que eles não estavam juntos.

      Os vestidos floridos viraram uma lembrança de quando eles ainda não tinham encontrado um ao outro.

      Redator(a): Soul
      Chefe de Redação: mata hari

      A anarquia ostenta duas faces.
      A de Destruidores e a de Criadores.
      Os Destruidores derrubam impérios, e com os destroços, os Criadores erguem Mundos Melhores.

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