Filosofia: Considerações Sobre o Tempo em Agostinho de Hipona [3] 72ª Edição

    • Filosofia: Considerações Sobre o Tempo em Agostinho de Hipona [3] 72ª Edição





      Considerações sobre o tempo, com base no pensamento de Agostinho de Hipona




      Agostinho (354-430), em seu livro XI da obra Confissões, se depara com questões metafísicas de como Deus criou o mundo? O que Deus fazia antes do mundo ser criado?, entre outras; mas a questão que é pertinente diz respeito ao tempo: o que é o tempo? Pergunta-se Agostinho.


      De início, como que se falasse para si mesmo, o filósofo acaba por “confessar” que se ninguém o questionasse a respeito do tempo ele saberia perfeitamente o que o tempo “é”, mas quando é preciso dar uma resposta à questão ele não consegue “conceituar o tempo”, ou seja, se depara com um abismo entre a experiência de tempo que cada Homem tem, e a capacidade de conceituar esta experiência, ou de determiná-la em palavras.


      Da afirmação acima, depreende-se a primeira concepção de tempo derivado do pensamento agostiniano. Agostinho entende o tempo como algo experimentado pelo sujeito, de maneira que não pode ser definido ou categorizado. O tempo “é” na medida em que os Homens “são”. Existe o tempo enquanto existem os homens temporais, ou seja, o tempo foi “criado” ou “passou a ser” de maneira conjunta ao mundo.


      Se o tempo existe é porque as coisas acontecem no mundo, e acontecem não ao mesmo tempo. Se as coisas não acontecessem não haveria tempo, pois não existiria o que se “medir com o tempo”, portanto o tempo é a medida atribuída à duração das coisas acontecendo. A não simultaneidade dos acontecimentos é também questão imprescindível para a existência do tempo. Se todas as coisas acontecessem ao mesmo tempo, não existiria o “antes” e o “depois”, ou seja, tudo seria presente, e se tudo fosse presente, não existiria o tempo, pois àquilo que é somente presente denominados “eternidade”. A eternidade nada mais é que um presente que não se torna passado, um continuo “é”, pois Deus “é”, dito isto, Agostinho pode agora afirmar que antes de Deus criar o tempo, o tempo não existia, parece algo óbvio e ingénuo dizer isto, que o tempo só passa a existir depois de criado por Deus, mas, afirmado isto, são inconcebíveis questões como, o que fazia Deus antes de criar o mundo? O mundo é eterno? Pois, estas questões, já em suas formulações, estão incorretas, visto que não existe “antes”, o tempo que fornece esta concepção de “antes” e “depois”, se não há tempo, como pode haver passado e futuro?


      Se a eternidade é o presente que não se torna passado, o tempo pode ser definido como um presente que tende a ser passado. E o que tende a ser passado é o que é efémero, transitório, passageiro, ou seja, só tende a ser passado o que é criado, o que é material. Desta forma depreende-se que o tempo ou está atrelado a matéria ou não existe, pois o tempo só é tempo quando tende a não ser tempo, pois caso o tempo não tendesse ao passado (ao não ser) seria eternidade.


      Como pode o tempo tender a “não-ser tempo”? Para responder a essa questão Agostinho busca esclarecer as concepções de tempo e suas divisões entre passado, presente e futuro. Ele se questiona de que modo o tempo passado, futuro e presente “são”, se eles existem verdadeiramente no mundo, ou são intuições construções da alma humana. Estas são questões chave para entender o desenrolar da definição de tempo para Agostinho.


      Para Agostinho o tempo não é consequência do movimento. Esta afirmação é muito importante, pois ela afasta-se da noção comum de tempo como movimento. O tempo não pode ser resultado do movimento porque o que é presente não se move, é estático, no presente as coisas são. No momento em que se olha para a água ela “é”, o movimento surge apenas na relação entre o que é presente e o que não é presente (o passado) ou a forma pela qual a água se apresentava no momento que já não é mais (passado). De forma mais simples, a água é água a cada tempo, mas ela não é a mesma água em todos os momentos, a esta “diferença” chama-se “movimento”.


      Voltando a questão da divisão do tempo em: presente, passado e futuro, Agostinho busca reflectir sobre a possibilidade da existência destes “três tempos”. É possível a existência do passado? É possível a existência do presente? É possível a existência do futuro?

      Agostinho de maneira sublime passa a depurar esta concepção trinitária do tempo, demonstra que o passado nada mais é do que a “presentificação do que já foi”; o presente é a “presentificação do presente” e o futuro é a “presentificação do que não é”. Mas existe o tempo passado e futuro na natureza? Aqui surge a diferenciação entre o tempo do mundo e o tempo da alma.


      O tempo do mundo, diz Agostinho, é sempre latente, não para, não muda, é consecutivo, indiviso, um constante vir-a-ser que tende ao não ser (passado). O tempo da alma ao contrário, é interno ao homem, de modo que através da memória o homem consegue tornar presente o que já foi, através da atenção torna presente o presente e através da expectativa torna presente o que não é.


      Existem, portanto, “dois tempos” para Agostinho, o tempo do mundo que consiste em um presente que sempre tende ao passado, pois caso não se tornasse passado seria a eternidade. E o tempo da alma que consegue sintetizar em si, e somente em si, a presentificação do não-ser do passado e do futuro.

      A duração das coisas, por conseguinte, está na alma é a alma que confere a duração temporal das coisas, ou seja, é a alma que é capaz de estabelecer o que é um “tempo longo” do que é um “curto tempo”; visto que no mundo nada dura, tudo é transitório, tudo é presente tornando-se passado, não há memória no mundo nem expectação, desta forma não há presentificação do passado e do futuro como existe na alma, a duração do “tempo mundano” é sempre a mesma, a alma que é capaz de dizer o que passa depressa ou o que passa demoradamente.



      E ai, já sabe como definir o tempo? o que pensas, está de acordo com o nosso autor? discorda dele? Deixe seu comentário...




      Fonte:
      Livro Confissões de Santo Agostinho


      Redactor: NASA
      Chefe de Redação: Alem da Lenda


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    • O tempo é a variavel que rege tudo. Mas a complexidade desta variavel é tão enorme, que ao simples mortal que a queira entender lhe caberá a insanidade.


      Enquanto meu coração bater,
      estarei dia após dia, a buscar a expansão de minha ignorância.